QUANDO CHEGARÁ O DIA FACÍNORA
Quando chegará o dia facínora, irremediável e mesmo outorgado do dito sim!
O dia chegará e quando chegar onde estarei senão a lembrança acudida de um sermão dominical sobre o fim dos tempos. Algum tempo depois olharia ao céu quando avisado de uma estranha nuvem que anunciava o prometido. Era comprida como uma trança estendendo-se de um horizonte ao outro. Era a queda de um astro celeste, o começo das chuvas de fogo a que viriam cair sobre a terra dissera alguém.
Mas enquanto fosse ou não começo do fim, esperaria numa caverna. Ei-la:
O menino tranca-se numa caverna, que não é tão uma, tem as suas pedras de estalactites, rochas que abrigam algum nicho bacteriano e musgos, nada além de adjetivos que o garoto imaginava ser. A muito ali abdicara de muita coisa para tal, família, amigos, lazer, escola. Tudo a um fim que não sabia direito o que era, todavia ocupava resolutamente como um baluarte ante a dor.
Vêm os dias, os anos, e a morada estoica passa a ter mais um significado que seriamente interpretava. Quanto mais envelhecia, descobria em sua fadiga o decisivo dia que deixaria a caverna.
A caverna era escura, mas lá fora, para ele, a perspectiva era sinistra: há muito tempo perdeu a sensibilidade do mundo exterior. Sua visão foi indo aos poucos sobrando os outros sentidos que usava constantemente.
Um dia depois de uma forte tempestade, um enorme vendaval selou a entrada da caverna por aonde vinha uma tênue luz. Não notou de imediato, por até mesmo não precisar. Tateou o a rocha e a descobriu diferente.
Do tempo que se alimentava com uma gota que caía do teto úmido a insetos, um transe profundo tomava-lhe o corpo, que mesmo a esta altura definhando obedecia-o quando um menor tremor derribou uma minúscula pedra que sentiu ao fundo, seu súbito pensamento de escape desfez-se por este decisivo dia. Toda a sua força estava esperando. E a caverna desapareceu.
Talvez não esperasse de imediato. Foi a caverna apenas o tranquilizante de sua casa sepulcral, fosse a que se escolhe em vida, a um mero título sem mesmo um epitáfio aficionado para que encontrassem depois. Luxo que não queria dispor.